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Transversais às diferentes sessões, são três os núcleos temáticos da discussão que o ciclo propõe:

– das dinâmicas entre teoria e experimentação
A articulação entre reflexão teórica e abordagem experimental são bem visíveis quer no trabalho de Mitchell, quer no de Krebs. A proposta de um acoplamento quimiosmótico em transformações de energia na mitocôndria, avançada por Mitchell, foi inicialmente de âmbito teórico, organizando as abordagens experimentais a desenvolver e antecipando a evidência que veio a ser obtida. No caso do ciclo metabólico de Krebs, podemos pensar na sua proposta como sendo em parte a organização de uma série de dados experimentais já conhecidos conferindo-lhes sentido. Presentes de maneira diferente no trabalho destes dois investigadores, as dinâmicas entre teoria e experimentação, ou os modos como estas se podem articular, serão assim trazidas ao debate.

– das publicações científicas
Elementos essenciais na produção e partilha de conhecimento em ciência, os textos têm aqui características particulares. O processo de revisão por pares sobre os artigos a publicar é antes de tudo um garante da robustez daquilo que é publicado. Mas, nesse processo de arbitragem científica, fazer passar ideias novas que de alguma forma rompem com o conhecimento anterior acaba por ser dificultado. São numerosos os casos de rejeição inicial de artigos que reportavam grandes descobertas, como aconteceu com o de Krebs rejeitado pela revista Nature. Mitchell, por seu lado, defendendo uma ideia muito diferente daquela que a maioria dos seus pares considerava nas suas investigações, acabou por fazer uma proposta detalhada do acoplamento quimiosmótico numa auto-publicação. Em ambos os casos, há a destacar a determinação dos investigadores em partilhar as suas ideias. E os casos serão um bom ponto de partida para uma discussão acerca da importância dos textos na produção e disseminação de conhecimento.

– do diálogo ciência-sociedade
No que diz respeito às mitocôndrias, são diversos os exemplos em que a investigação ultrapassa os aspectos laboratoriais. Acontece assim com a pesquisa das patologias humanas associadas a defeitos mitocondriais, as quais derivam frequentemente do genoma mitocondrial e representam disfunções graves. A transmissão do DNA mitocondrial é sempre feita pela mãe e surgiu recentemente a possibilidade de ultrapassar a transmissão do defeito genético em associação com tecnologias de reprodução medicamente assistida. O envolvimento de um terceiro “progenitor” levanta diversas questões éticas e necessidade de regulação, suscitando um debate que invoca a participação de todos nós, cidadãos. A prática de uma “ciência com a sociedade e para a sociedade”, como tem sido designada, será pois um dos focos do debate.

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